domingo, 29 de maio de 2016

B.Day

Um, dois, três toques no celular. Ele não atendeu a chamada. No Whatsapp apaga uma mensagem sem nem ao menos visualizar. Essa não terá dois tiques. Eu odeio aniversário - pensou ele com força e desânimo. Nublando os olhos um aperto no peito era o que sentia enquanto se vestia para o trabalho. A margem de sua janela o sol se levantava com a promessa de assombrar o mal humor típico das manhãs. Resignou-se. Pegou uma maçã verde e saiu de casa.

- Tem gente que só lembra de você com a notificação de aniversário da rede social. Droga! Esqueci de tirar essa merda. São nesses dias que voltam as histórias de amor que você quis enterrar no mais profundo passado. Merda! Tem lembrança que nem clicando em deixar de seguir dá pra evitar ter.

Remoeu, remexer e tudo de novo.

No metrô, tantos minutos depois, o sol já havia iluminado tudo quando ele ouvia Sunshine on my shoulders. O coração se abria feito a flor-da-lua , mas era sol... Sunshine! Disse ele baixinho já com um sorriso maroto. Bipolar,duo, fênix, outro. B. Day... Balbuciou enquanto permitia o flashback saudosista: balões, sorrisos, abraços e parabéns! Não resistiria a felicidade. Nunca. Não foi aos 15, nem aos 20, não será aos 30. B. Day. Parabéns.

"Uma alegria excelsa pra você No paraíso astral que começa" ‪#‎CaetanoVeloso‬

imagem: http://bday-cake.com/wp-content/uploads/2016/01/Happy-Bday-Cake-Wallpaper.jpg

sábado, 2 de abril de 2016

Ovelhas Negras, Caio Fernando Abreu

E se fosse possível reaver todos os caminhos que você não escolheu? Optar por ter novamente em mãos algo que descartou? O rascunho que não foi publicado e está esperando sua vez no fundo de alguma gaveta cheia de coisas velhas... Foi justamente o que Caio Fernando Abreu fez em Ovelhas Negras.

"Nunca pertenço àquele tipo histérico de escritor que rasga e joga fora. Ao contrário, guardo sempre as várias versões de um texto, da frase em guardanapo de bar à impressão do computador".

O autor selecionou nesta obra os contos que escreveu entre 1962 e 1995. Textos que por diversos motivos não entraram em obras anteriores, alguns inéditos outros publicados uma única vez em jornal.

Compilar 33 anos de história engavetada é, sem dúvida, muito autobiográfico se pensarmos que o que nos desnuda nós tratamos de esconder. Seria igual com o autor? Será que Caio escondeu o que achava inacabado? Ou talvez coisas lado B, que não parecessem linhas suas... Fato é que a obra é de um gostoso tom. Cada texto um pedaço da alma do artista, um Caio de uma época diferente, mas sempre ele: intenso, explicito e firme na fraca humanidade do ser.

Imagem: Arquivo Pessoal